A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã voltou a agitar o mercado global de energia e redesenha o cenário econômico brasileiro: enquanto o preço do petróleo dispara e impulsiona exportações e arrecadação, especialistas alertam que a alta da commodity pode alimentar a inflação, adiar cortes de juros e aprofundar uma perigosa dependência fiscal do setor petrolífero.
Petróleo sobe quase 5% e acumula alta de 30% em seis meses
A tensão no Oriente Médio se intensificou nas últimas semanas: Teerã retomou ações contra embarcações no Estreito de Ormuz — uma das principais rotas de escoamento mundial — e os Estados Unidos responderam com novos ataques a alvos em território iraniano. O reflexo foi imediato nos preços.
O petróleo Brent, referência internacional, encerrou o pregão de terça-feira (1º) com alta de 4,6%, avançando US$ 4,16 e chegando a **US$ 94,65 por barril**. Em seis meses de conflito, a commodity acumula valorização de aproximadamente 30%, com oscilações ainda mais acentuadas nos momentos de maior tensão.
Brasil desponta como fornecedor alternativo e bate recordes nas exportações
Com as rotas tradicionais do Oriente Médio em risco, grandes consumidores passaram a buscar alternativas — e o Brasil sai na frente. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy, países asiáticos já procuram reduzir a dependência de petróleo do Oriente Médio e passaram a ver o Brasil como parceiro estratégico no planejamento energético.
Os números confirmam a mudança. Entre janeiro e julho deste ano, as vendas externas de petróleo e derivados superaram US$ 32,5 bilhões, respondendo por quase 15% de todas as exportações brasileiras. Ambos os patamares são recordes da série histórica iniciada em 1997, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Arrecadação cresce, mas alta do petróleo traz risco inflacionário
O aumento dos preços também impulsionou as contas públicas. Em julho, o Governo Central registrou superávit de R$ 10,8 bilhões, puxado sobretudo pela alta nos royalties e receitas ligadas à exploração de recursos naturais — reflexo da combinação entre preços internacionais mais elevados e crescimento da produção nacional.
“O petróleo é o principal item de exportação. O Brasil é grande produtor e exportador, de modo que gera renda expressiva para a União e para os entes subnacionais”, resume o especialista em contas públicas Murilo Viana.
Porém, o mesmo movimento traz riscos. O encarecimento da energia eleva custos de transporte, produção e bens em geral, pressionando a inflação. Com preços mais altos, bancos centrais ao redor do mundo devem ter mais dificuldade em reduzir as taxas de juros — o que torna o crédito mais caro e retarda o crescimento.
“O petróleo traz receita, mas também cria um componente inflacionário que encarece o custo do dinheiro”, resume Viana.
Sinais de desaceleração e imposto de exportação deve cair em 2027
A análise da arrecadação revela ainda outro alerta: parte importante do crescimento vem de fontes ligadas a juros e ao setor petrolífero, e não necessariamente ao dinamismo da atividade econômica.
O Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) sobre aplicações financeiras, por exemplo, cresceu 29,5% — reflexo das taxas elevadas. Já os tributos mais diretamente ligados ao faturamento e lucro das empresas avançaram bem menos.
Além disso, a cobrança de 12% sobre a exportação de petróleo bruto, instituída em março para financiar subvenções aos combustíveis, não está prevista no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027. O governo trabalha com a hipótese de o Brent se estabilizar perto de US$ 70 por barril, patamar em que a medida deixaria de ser necessária. Para a pesquisadora da FGV EESP Tatiana Pinheiro, a retirada é necessária para preservar a competitividade brasileira caso o mercado volte à normalidade.
Especialistas alertam: dependência do petróleo é risco para o futuro
O ponto mais preocupante, segundo analistas, é a crescente dependência das contas públicas em relação ao petróleo num momento em que o mundo avança na transição energética e o recurso é finito.
“Aumentamos a dependência da receita do petróleo sem nos prepararmos para a transição energética. Isso torna o cenário fiscal mais instável se não criarmos amortecedores”, alerta Murilo Viana.
Para ele, a valorização e a expansão da produção — incluindo a Margem Equatorial — garantirão receitas por alguns anos, mas o desafio é transformar essa riqueza temporária em investimentos que reduzam a dependência do país em relação aos combustíveis fósseis.
Em resumo: a guerra no Oriente Médio traz ao Brasil ganhos de curto prazo com exportações e arrecadação, mas também inflação mais resistente, juros mais altos por mais tempo e um alerta urgente: o petróleo não pode ser a base permanente das contas públicas.
